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03 março 2010

Elva na Ilha do Silêncio

Bem longe daqui, lá nos confins mais longínquos da terra, mesmo ao lado de onde nasce o sol, havia uma ilha. Para se lá chegar, só de bote. O velho barqueiro passava dias recostado à sombra do velho plátano que já lhe conhecia bem as voltas e as linhas. Não transportava por moedas. Até porque não havia quem lá quisesse ir - eu bem tive vontade, mas nunca fui- a não ser Elva.
Elva era uma rapariga simples, bonita, mas de uma estranha forma de vida - isto diziam uns e pensavam outros. Todos os dias, antes do nascer do sol, caminhava até ao grande plátano e embarcava em direcção àquela ilha.
"- Bons dias menina!" - dizia-lhe todas as manhãs o barqueiro - "o destino é o mesmo, não é não?" - terminava ele perguntando.
"- Bom dia. Sim, por favor." - respondia ela como que sussurrando. E mais não dizia. Raramente se lhe ouvia a voz. Não que não tivesse com quem falar. Na margem de cá da ilha, todos os habitantes eram faladoiros... e quando tinham oportunidade ainda puxavam por ela. Elva pouco se interessava pela fala. Respondia, por vezes e apenas por educação.
Entrava no pequeno bote. O barqueiro desatava as amarras do tronco do velho plátano e, num salto só, entrava no bote. De uma margem à outra, apenas silêncio.
"- Ora cá estamos, menina! Deixe que ajudo-a a descer.... cuidado e... já está! Então até mais logo, ao sol-pôr!" - dizia-lhe o barqueiro.
Até que Elva desaparecesse por entre as árvores, o barqueiro não desarredava dali. Depois ia. Sem olhar para trás.

Entrando pela ilha adentro, Elva ia-se sentindo cheia. Feliz. E não era para menos! Rodeada de belas e sumptuosas árvores - de tantas espécies diferentes não consigo aqui enumerá-las - com copas que se assemelhavam a verdadeiros merinaques, extraordinariamente acopladas - vendo de onde eu vejo até parecia que alguém a tinha ordenado assim. Mas a verdade é que estas árvores protegiam algo sagrado que se encontrava no seu seio. E era isso que encantava Elva. Era o que a fazia levantar-se todas as manhãs. Enquanto se embrenhava pela ilha, de pezinho descalço e olhos fechados, concentrava-se até conseguir ouvir o que queria. Muito devagarinho assimilava o que ouvia e, depois, até já conseguia responder. Testemunho-vos eu que esta práctica lhe levou anos de treino!
Pequenos e grandes seres apareciam, quase que do nada, para a cumprimentar. Borboletas e libelinhas em harmonia se rodopiavam à volta de Elva, depositando-lhe coroas de flores nos cabelos. Não havia  outro lugar assim - ai não havia não! por isso é que aquele ficava nos confins mais longínquos da terra! - e não havia outro lugar onde Elva quisesse partilhar o seu viver. E aquele lugar era tão especial porque Elva e os animais conseguiam comunicar-se com os pensamentos. Ouvia-os e falava-lhes... lá no pensamento dela. E todo o dia era assim... até chegar a hora do barqueiro. Um pouco antes de o sol se pôr lá estava ele impaciente à espera de Elva.
.
Elva saía sempre do seio da ilha a sorrir...havia dias que o barqueiro jurava que a ouvia cantar - e eu também! Mas não. Sorria, apenas. Vinha sempre de sorriso aberto. Mas em silêncio. Nem uma palavra. Nem um "adeus Sr. Barqueiro", nada. E ia assim até casa. Cantarolando para si mesma, rodopiando pelas ruas com as suas sete saias de linho cravadas de flores.
**
Todos os dias era assim. Todos os dias os seus pensamentos voavam até uma ilha supostamente existente nos confins mais longínquos da terra, mesmo ao lado de onde nasce o sol. Em silêncio lá iam eles, os pensamentos, enquanto Elva se debruçava na janela do quarto a mirar a imensidão do mar. Tudo era desenhado na sua cabeça de rapariga meio aluada, meio certinha. Até o barqueiro do velho plátano.
E aquele silêncio alegremente reconfortante que diferenciava a ilha do resto da terra, era o que a fazia respirar, fechar a janela e deitar-se... para no dia seguinte lá voltar... com o seu pensamento.
***




Participação, alegremente silenciosa, no desafio do mês de Março da Fábrica de Letras



imagem daqui

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