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17 maio 2011

Dar à luz com o coração - Retalhos

Todas as pessoas têm a sua história. Todas as pessoas têm pequenos pedaços de histórias com que vão delineando as suas vidas. Todas as pessoas têm a sua própria agulha... aquela com que costuram as linhas da sua vida. Eu tenho uma história, construída de vários pedacinhos de histórias da minha vida. Alguns pedacinhos não são lá muito bonitos, mas sem eles a minha história estaria incompleta por completo!! Conseguem imaginar uma manta de retalhos? Lindas, não são? É assim que quero que imaginem a história da minha vida.
Neste momento, as pessoas que por aqui passam vão poder pegar num retalho da minha vida e admirá-lo, como eu o admiro!
No âmbito da campanha "ajude a tornar o mundo cheio de momentos de infância felizes" , lançada pelas Aldeias S.O.S., como não podia deixar de ser, eu participei com o meu testemunho de "momento de infância feliz"
Este foi o retalho que alterou o rumo da minha vida:

"O meu momento de infância feliz?? É simples!! Foi no dia 2 de Outubro de 1986... Tinha eu 8 anos. De tão pequenina [ainda hoje com 30 (e quase cinco) continuo pequenina], eu nem sabia que no mundo existiam maternidades como aquela. Onde os filhos já nascem crescidos e as mães dão à luz com o coração. Mais do que isso, amam-nos como se tivéssemos saído da sua própria barriga. E o mais incrível no meio disto tudo, é que os filhos podem chegar à maternidade antes das mães, até mesmo antes da maternidade abrir!! [mas que raio de conversa é esta - pensam alguns de vocês]!!
Pois é... facto, facto, é que aconteceu comigo! Depois de alguns retalhos da minha vida menos bonitos, finalmente tinha encontrado um pedaço lindo para juntar à minha 'manta'!!
No dia 1 de Outubro de 1986 fiz uma viagem [lembro-me como se fosse ontem] de Peniche até à Guarda a caminho da tal maternidade. Sentia ansiedade, muita muita ansiedade e na minha cabeça de menina todos os pensamentos voavam a mil. O que eu sabia é que ia ter uma mãe... Caramba, uma mãe!!
Finalmente, tínhamos chegado à tal maternidade onde se dá à luz com o coração. Do lado esquerdo estavam erguidas 3 casinhas. E a única coisa que me lembro de ter pensado na altura foi: "que casinhas tão bonitas" [é que vocês não sabem mas, até então, eu nunca tinha vivido numa casa a sério, mas a barraca onde vivi até era bem fixe porque tinha cortinas penduradas a fazer de paredes interiores e assim eu tinha um quarto só para mim!! :P]!!

Nessa noite fiquei em casa dos "senhores que estavam a tomar conta da maternidade" porque a minha nova mãe ainda não tinha chegado...
Acreditam que nessa noite nem consegui dormir?? Ah pois é!! Na minha cabecinha de menina voavam estrelas e mais estrelas. E em cada uma delas eu imaginava o rosto da minha nova mãe... Foi assim até de manhã e, com o nascer do sol, a maior estrela do universo, eis que ela chega. De sorriso nos lábios e de braços abertos para me acolher. Algo me empurrou até aos braços dela e senti o seu carinho como se a conhecesse desde sempre. Não há como descrever a alegria que senti.
Aquela desconhecida, já de idade avançada e viúva, tinha chegado para ser a minha mãe!! Obrigada minha querida Maria Alice , por seres A minha mãe!"


Retalho deste post, para o desafio do mês de Maio da Fábrica de Letras


09 janeiro 2011

entre mãe e filha às vezes é assim #4

Eu: Ó filha, sabes o que é preconceito?
Carol: Preconceito? Porquê?
Eu: Nada de especial... eu é que gostava de saber se tu sabes o que é...
Carol: Duhhhh, então isso é tipo discriminação...!
Eu: Ahhhhhhhhhhhh...! Discriminação? Então e isso é o quê??
Carol: Ó mãe, por amor à santa!! Então, isso é discriminar! Queres que te explique melhor? É fácil. É tipo uma forma de descreveres as pessoas como tu queres e não como elas são. Percebeste?
Eu: Percebi :o

Preconceito no desafio do mês de Janeiro da Fábrica de Letras

03 novembro 2010

Conjuga o teu verbo

Ama. Sorri. Brinca. Ama. Escreve. Descobre. Ama. Come. Dorme. Arrota. Puxa. Liberta. Ama. Sonha. Vibra.  Aperta. Cruza. Leva. Anda. Brinca. Fecha. Coça. Curte. Desaparece. Ama. Pula. Canta. Corre. Inventa. Desorganiza. Escolhe. Melhora. Acredita. Vence. Teima. Joga.  transparencia2Brinca. Salta. Fala. Esquece. Molha. Bebe. Canta. Cheira. Vomita. Rasga. Ri. Deixa. Veste. Sai. Come. Encontra. Arranja. Gasta. Ama. Lava. Pensa. Parte. Atreve-te. Diverte-te. Sonha. Voa. Cresce. Mergulha. Ajuda. Mostra. Cai. Senta. Deita. Enrola-te. Lê. Bate. Ama. Liga. Brinca. Compra. Agarra. Fantasia. Cria. Compreende. Simplifica. Conversa. Ouve. Chora. Foge. Trabalha. Corre. Rebola. Adormece. Junta. Canta. Dança. Sonha. Descansa. Pinta. Anseia. Ama. Beija. Sorri. Imagina. Observa. Toca. Come. Dorme. Faz. Triunfa. Agradece. Responde.


Sê transparente. Mostra-te como és.  
“Preciso que me digas os três primeiros verbos que te vêm à cabeça”. Foi a mensagem que enviei a alguns amigos que, mesmo sem saberem porquê, me responderam. Para que não se torne muito confuso, as palavras escritas com cores são as enviadas por eles e as que estão a preto foram surgindo na ponta dos meus dedos.
Muitos falam em “Amar” e não será por acaso. Não será o amor a base de todas as nossas acções? Não será o amor o mais importante para todos nós? Não há nada que possamos fazer bem que não tenha uma pitada de amor.
Com a transparência também funciona assim.
Faz de ti aquilo que entenderes. Sorri para o mundo.
Deixa passar por entre ti mesmo tudo o que mais aprecias e tudo o que denuncias. Age com amor e transparência e conjugarás os verbos em ti mesmo… nos tempos que quiseres. Sê feliz.

Participação transparente no desafio do mês de Novembro da Fábrica de Letras, sob o tema “Transparência”
Agradecimentos:
Carolina, Sílvia, Sara, Clara V., Rita V., Sérgio, Rita S., Magda, Flora, Xaninha, Pedro, Mónica, Benvinda, Xana, Carina, Marcelo Clara F. e Verónica.
Obrigada a todos por terem “participado”!

09 setembro 2010

o mundo e as bestas

O mundo é redondo.
 ***




Mas dentro dele cabem muitas bestas quadradas.




*imagem ilustrativa*





{coloquei ali a imagem do mundo com as bestas... mas as bestas são tantas e tão quadradas que deram cabo do mundo. e foram-se embora}


Tema Livre do mês de Setembro para a Fábrica de Letras

11 junho 2010

::Copo Vazio::Chico Buarque::



É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio,
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar.
É sempre bom lembrar,
Guardar de cor que o ar vazio
De um rosto sombrio está cheio de dor.
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho,
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor.
Que a dor ocupa metade da verdade,
A verdadeira natureza interior.
Uma metade cheia, uma metade vazia.
Uma metade tristeza, uma metade alegria.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.

Estava Vazio... para a Fábrica de Letras. Participação do mês de Junho


02 maio 2010

E por falar em Paixão...




Oh meine Godt!! E quem não se lembra??

Adoro! Adoro!


Participação de 'Heróis do Mar' no desafio do mês de Maio sob o tema Paixão, para a  Fábrica de Letras

14 março 2010

Enjoy the [90's] silence




Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me 

Pierce right through me
Can’t you understand
Oh my little girl


All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm


Vows are spoken
To be broken
Feelings are intense
Words are trivial
Pleasures remain
So does the pain
Words are meaningless
And forgettable


All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm


Depeche Mode, in Violator




Recordando o Silêncio dos anos 90, para Fábrica de Letras

03 março 2010

Elva na Ilha do Silêncio

Bem longe daqui, lá nos confins mais longínquos da terra, mesmo ao lado de onde nasce o sol, havia uma ilha. Para se lá chegar, só de bote. O velho barqueiro passava dias recostado à sombra do velho plátano que já lhe conhecia bem as voltas e as linhas. Não transportava por moedas. Até porque não havia quem lá quisesse ir - eu bem tive vontade, mas nunca fui- a não ser Elva.
Elva era uma rapariga simples, bonita, mas de uma estranha forma de vida - isto diziam uns e pensavam outros. Todos os dias, antes do nascer do sol, caminhava até ao grande plátano e embarcava em direcção àquela ilha.
"- Bons dias menina!" - dizia-lhe todas as manhãs o barqueiro - "o destino é o mesmo, não é não?" - terminava ele perguntando.
"- Bom dia. Sim, por favor." - respondia ela como que sussurrando. E mais não dizia. Raramente se lhe ouvia a voz. Não que não tivesse com quem falar. Na margem de cá da ilha, todos os habitantes eram faladoiros... e quando tinham oportunidade ainda puxavam por ela. Elva pouco se interessava pela fala. Respondia, por vezes e apenas por educação.
Entrava no pequeno bote. O barqueiro desatava as amarras do tronco do velho plátano e, num salto só, entrava no bote. De uma margem à outra, apenas silêncio.
"- Ora cá estamos, menina! Deixe que ajudo-a a descer.... cuidado e... já está! Então até mais logo, ao sol-pôr!" - dizia-lhe o barqueiro.
Até que Elva desaparecesse por entre as árvores, o barqueiro não desarredava dali. Depois ia. Sem olhar para trás.

Entrando pela ilha adentro, Elva ia-se sentindo cheia. Feliz. E não era para menos! Rodeada de belas e sumptuosas árvores - de tantas espécies diferentes não consigo aqui enumerá-las - com copas que se assemelhavam a verdadeiros merinaques, extraordinariamente acopladas - vendo de onde eu vejo até parecia que alguém a tinha ordenado assim. Mas a verdade é que estas árvores protegiam algo sagrado que se encontrava no seu seio. E era isso que encantava Elva. Era o que a fazia levantar-se todas as manhãs. Enquanto se embrenhava pela ilha, de pezinho descalço e olhos fechados, concentrava-se até conseguir ouvir o que queria. Muito devagarinho assimilava o que ouvia e, depois, até já conseguia responder. Testemunho-vos eu que esta práctica lhe levou anos de treino!
Pequenos e grandes seres apareciam, quase que do nada, para a cumprimentar. Borboletas e libelinhas em harmonia se rodopiavam à volta de Elva, depositando-lhe coroas de flores nos cabelos. Não havia  outro lugar assim - ai não havia não! por isso é que aquele ficava nos confins mais longínquos da terra! - e não havia outro lugar onde Elva quisesse partilhar o seu viver. E aquele lugar era tão especial porque Elva e os animais conseguiam comunicar-se com os pensamentos. Ouvia-os e falava-lhes... lá no pensamento dela. E todo o dia era assim... até chegar a hora do barqueiro. Um pouco antes de o sol se pôr lá estava ele impaciente à espera de Elva.
.
Elva saía sempre do seio da ilha a sorrir...havia dias que o barqueiro jurava que a ouvia cantar - e eu também! Mas não. Sorria, apenas. Vinha sempre de sorriso aberto. Mas em silêncio. Nem uma palavra. Nem um "adeus Sr. Barqueiro", nada. E ia assim até casa. Cantarolando para si mesma, rodopiando pelas ruas com as suas sete saias de linho cravadas de flores.
**
Todos os dias era assim. Todos os dias os seus pensamentos voavam até uma ilha supostamente existente nos confins mais longínquos da terra, mesmo ao lado de onde nasce o sol. Em silêncio lá iam eles, os pensamentos, enquanto Elva se debruçava na janela do quarto a mirar a imensidão do mar. Tudo era desenhado na sua cabeça de rapariga meio aluada, meio certinha. Até o barqueiro do velho plátano.
E aquele silêncio alegremente reconfortante que diferenciava a ilha do resto da terra, era o que a fazia respirar, fechar a janela e deitar-se... para no dia seguinte lá voltar... com o seu pensamento.
***




Participação, alegremente silenciosa, no desafio do mês de Março da Fábrica de Letras



imagem daqui

28 fevereiro 2010

Um recado da Mãe Alice para todos vocês

Os beijinhos e palavras bonitas dirigidas à minha mãe já foram transmitidos. Como, devem calcular, com 81 anos (50 mais que eu), já lhe fez um bocado de confusão esta história do blog e da internet, e dos comentários de pessoas que não conhece, etc, etc. Mas a resposta dela foi a seguinte:

"Olha filha... não estou a perceber nada do que estás "prá'i" a dizer, mas diz-lhes que eu é que me sinto orgulhosa por teres sido a minha primeira filha. Diz a essa menina que também é de Moçambique (sim Brown Eyes, é para ti) que não a conheço, mas que gosto muito dela só por ser da minha terra ( a minha mãe também é de Moçambique). E diz a todos esses teus amigos lá do computador - raios que não sei como é que fazem essas coisas agora, no meu tempo nós escrevíamo-nos por carta, agora é só modernices...  - mas adiante, diz-lhes que aqui a velhota gostou muito de te ouvir ler o que eles escreveram. Um beijinho para todos e lutem sempre com muita força e muita garra!!"

e continua... ainda na dúvida:


"- Olha lá mas eles vão mesmo ler o que tu vais escrever??"
"- Sim mãe, não se preocupe. Não só vão ler, como tenho a certeza que vão gostar de a ter "conhecido"
"- Não percebo nada, mas enfim filhota, tu lá sabes!"
*
Acreditem que os olhos da mãezinha se encheram de lágrimas enquanto o seu coração se enchia de orgulho a cada palavra que eu lhe lia!!


Obrigada!!


Ainda sobre o tema Velhice... orgulhosamente publicado na Fábrica de Letras

03 fevereiro 2010

O Feiticeiro das Pedras do Mar

 
Era um velho muito velho, que vivia numa casa de palha, na praia, sozinho e feliz.
Os putos costumavam passar pela casa de palha e, entoando risinhos de gozação ou, talvez brincadeira, chamavam pelo "Feiticeiro das Pedras do Mar" - era assim que por todos era conhecido - e depois, os mais envergonhados, fugiam a correr, os outros, mais corajosos, ficavam à espera que reagisse. Reagia sempre. Tanto para os que fugiam como para os que ficavam, com um sorriso. O velho sorria sempre. Com aquela dentadura mais branca que sei lá o quê - se ele não fosse velho, juraria que eram dentes de leite - sorria para os gaiatos. Nunca falava - aliás nunca lhe ouvi uma palavra, nem resmungada, nem rezada! Mas sorria sempre.

Ninguém lhe sabia o nome - nem eu sei - e também ninguém lhe conhecia as raízes. Era um velho muito velho. Mas só se sabia isso porque o velho era o mesmo desde o tempo em que os pais daqueles putos eram putos. Já eles por ali passavam com risinhos a chamar pelo "Feiticeiro".
Era preto que nem carvão, o velho. De caracolinhos brancos e bem cerrados, mas sem uma única linha da passagem do tempo no seu rosto.
Toda a vila estava habituada apenas à sua casa de palha e à sua presença ali... Ali mesmo, entre uma duna e outra, naquela praia que era a dele... Todos os outros, mesmo não sabendo, eram seus convidados de todos os dias. Fosse verão ou inverno. A praia tinha sempre gente. E sorria para as gentes como se estivesse a recebê-los nalguma festa. 
Quem ia à "praia do feiticeiro" - assim era conhecida - não entrava sem o cumprimentar, nem saía sem se despedir... nem que fosse só com um aceno.
Mas também ninguém sabia que conversas se travariam na sua cabeça, por detrás daquele sorriso branco.

Mas por mais "feiticeiro" que fosse achado pelas gentes daquela vila - e pelas demais, incluindo eu - na verdade, o velho não o era. Não era adivinho, não lançava búzios, não engendrava poções mágicas.
No entanto, o velho tinha uma curiosidade, de que poucos falavam, mas eu atrevo-me aqui a contar-vos. Tinha sete pedras nos, ainda, bolsos das suas calças mais que rasgadas (quase desfeitas, acreditem). Mas aqueles bolsos resistiam e albergavam todos os dias o mesmo peso. Há anos que assim era. Quatro pedras no esquerdo e três no direito. E nunca as trocava de bolso. Sabia exactamente quais eram "as quatro" e quais eram "as três". Ninguém sabia o que fazia ele com aquelas pedras. Volta e meia andava com elas na mão. Às vezes parecia que falava com elas. Outras vezes parecia que as lia. Outras ainda, que as ouvia.

Quando o sol estava alto, o velho colocava-as por cima da palhoça durante algum tempo. E depois retirava-as directamente para os respectivos bolsos. Repetia isto sempre que havia sol.

Um dia os putos passaram pela casa de palha, com os habituais risinhos de gozação, ou brincadeira - nunca cheguei a perceber -  e o velho... nada! O sol estava quente e as pedras como de costume estavam em cima da palhoça. Mas do velho, nem sinal.
Os mais corajosos atreveram-se a espreitar por entre as palhas já ressequidas pelo sol e nada mais conseguiram avistar que a sua esteira de palha e um caneco de barro.
O mais pequenino ousou, ainda, tocar nas pedras do velho - nunca ninguém ousara - e percebeu que faltava uma... Toda a gente dizia que o velho tinha sete pedras, mas o puto só contava seis...

Correram para a vila, ofegantes e assustados. Depressa se espalhou a notícia e mais depressa ainda se juntaram as gentes na "praia do feiticeiro".  Os sons naturais da praia foram abafados por um burburinho irritantante de especulações - algumas delas descabidas, confesso. Nem nas pegadas na areia poderiam tentar descobrir fosse o que fosse, pois se a praia estava cheia de gente, então as pegadas do velho haviam desaparecido.

O sol foi-se e, pouco a pouco as pessoas foram saindo da praia. Ficaram os putos. Ainda estarrecidos e, pelo que percebi, um pouco enfurecidos com o velho.

- "Mas afinal onde se meteu o Feiticeiro das Pedras do Mar?" - perguntou um deles já desvairado.
- " Foi procurar a pedra que lhe falta. Se calhar está dentro do mar..." - respondeu o mais pequeno - aquele que contou as pedras.

Instalou-se um silêncio cortante. E o puto mais pequeno vira as costas zangado e diz:

- "A Praia do Feiticeiro" não vai voltar a ser a mesma se o velho não encontar a pedra... Disso eu tenho a certeza!" E foram-se embora.


Participação de um velho "feiticeiro" no desafio do mês de Fevereiro para a Fábrica de Letras

16 janeiro 2010

Mensagem da Natureza #2




[recebi este video por email, e não resisti em colocá-lo aqui... só para partilhar] 



Observe-se o desempenho excepcional da mãe após a expulsão do bebé. Um parto fenomenal.Os humanos, chamados civilizados, há muito que deixaram de observar a natureza, imagens tão naturais como esta que os ajudou em tempos remotos a evoluir no seu caminho, ao ponto de ignorar o respeito pela natividade, pelo seu semelhante, permitindo que, "democraticamente", comandem, de certo modo, os nascimentos dos seus semelhantes.


{para mim, mais uma grande mensagem da Natureza}




Uma bela mensagem da Natureza (repassada vezes sem conta), para Fábrica de Letras

09 janeiro 2010

Gina Imagina

Gina Imagina era feliz. Era bonita. Vestia-se como queria. Vestia saias de pétalas de papoila. Com pétalas de tulipa forrava as pernas até ao joelho, para fazer as meias. E trazia sempre os seus "brincos de princesa" pendurados nas orelhinhas. Das folhas das árvores fazia as camisolas. Todos os dias tirava uma cor do arco-íris e colocava nos seus cabelos encaracolados, para fazer de fita. 
Por onde Gina passava, tudo se cobria de flores, frutos e perfumes. 
Mas as pessoas da sua terra achavam-na tola.
"- Ó Gina, pareces uma árvore andante!" - diziam uns
"- Gina, e se parasses com essa correria? Era bem melhor para todos e não punhas tudo em alvoroço!" - resmungavam outros.
Mas, de certa forma, as pessoas gostavam dela.
Os pais da Gina deixavam-na. Só queriam vê-la feliz. E também eles eram felizes. E às vezes também se vestiam como ela. E pulavam e saltavam e davam voltas e voltas, mas tantas voltas que até ficavam tontos! Eram felizes!
E as gargalhadas? Conseguiam fazer-se soar em todos os pontos do mundo!! E as pessoas ouviam e às vezes soltavam um breve sorriso, ou mesmo uma gargalhada sem mais nem menos. Mas gostavam daquela sensação [que nem imaginavam de onde vinha]!
De todos os lados vinham pessoas só para conhecer a família Imagina. É que, vocês podem não acreditar, mas alegria de Gina corria o mundo com a sua gargalhada. Levada pelo vento. Refrescada pelo mar. Aquecida pelo sol. Protegida pelas nuvens. E, quando isso acontecia, as pessoas mudavam... e eram felizes por instantes. E Gina Imagina sentia isso. E via também. E fazia mais e mais. Nunca se cansava, aquela menina.
Mas um dia a Gina adormeceu. Sim. Deixou-se dormir. Acordou tarde. Mas tão tarde que parecia que nunca mais ia acordar. O Sr. e a Sra. Imagina ficaram preocupados e... confesso-vos que eu também estou! Afinal, como seria passar uma dia sem Gina? O que é que o arco-íris ia fazer ao violeta [que era a cor da fita desse dia]? E as pessoas?
Bem, o que eu sei, é que as pessoas depressa se juntaram no lago - que estava parado paradinho à espera que Gina o revolvesse para se transformar em cascata - e a confusão estava instalada. Cada um para si pensava, mas ninguém dizia nada. E o sol não sabia mais que fazer, nem o vento, nem o mar, nem as nuvens. Ainda não tinham soado as gargalhadas da Gina. E depois, sem mais nem menos, tudo acinzentou - digo-vos já que nem eu percebi porquê. E as pessoas começaram a dispersar tentando, para si mesmas, imaginar o que poderia ter acontecido - é que ela não acordava - mas não lhes vinha nada à ideia. Nada mesmo. 
Já o dia ia longo e continuava cinzento. E foi quando Gina acordou, sem que ninguém desse conta - nem eu mesma, como calculam. Espreguiçou-se. Mas de um espreguiçar tão profundo e forte que as suas roupas dentro do roupeiro conseguiram ouvir. E pularam todas para cima da cama de Gina.
- "Gina! Gina! Imagina só o que aconteceu!!" - gritava a papoila
Mas Gina não estava a entender nada e, entre uma gargalhada e um bocejo, ia perguntanto:
- "O que foi?? Tanta agitação?? O que aconteceu?? Vá lá tolinhos... o que aconteceu?"
- "Esta manhã não houve alegria! - responderam os brincos de princesa.
- "Porquê?? Todos os dias há... - disse a pequena Gina
- "Porque tu estavas a dormir!" - responderam todas em coro.
...
- "Sabes Gina... acho que as pessoas não conseguiam 'imaginar'... " - começaram as tulipas.
Intrigada, Gina interrompe: "Imaginar?? Imaginar o quê??
- "O mundo sem ti." - responderam as folhas das árvores
E logo a seguir, os 'brincos de princesa saltaram para as orelhas de Gina e sussurraram:
-"Gina Imagina, imaginas como seria a vida sem imaginação? Feia e triste. E tu bem sabes o que fazes aqui..."
- "Sim eu sei, vim para embelezar a vida das pessoas!"
- " Sim Gina! Imagina a beleza que é ver as pessoas alegres." - disseram as papoilas.
- "Não há nada mais belo que a Imaginação!" - exultaram todas!

Depois disto, o que sei é que Gina arranjou um cuco... para a despertar... não fosse ela adormecer e ficaríamos... hum... como dizer? Sem imaginação...? E se a imaginação não é das coisas mais belas que o ser humano tem, este mundo estaria cinzento... até na nossa imaginação!! 

Hipoteticamente "bela" participação no desafio do mês de Janeiro da

12 dezembro 2009

A "verdadeira" história do Pai Natal


Há muito tempo atrás, numa noite estrelada de inverno, nasce o Menino Jesus, que [dentre muitos outros acontecimentos que não vou explicar agora] foi visitado, não por 3, mas por 4 Reis Magos... Sim, 4! Baltasar, Belchior, Gaspar e Nicolau.
Todos os Reis trouxeram presentes para mostrar a sua adoração ao Menino que acabara de nascer. No entanto, o presente do Rei Mago Nicolau não causou momentos de felicidade à sagrada família, mas sim uma enorme noitada de cólicas ao Santo Menino. O verdadeiro ouro negro, o Cacau, iria mudar para sempre o rumo do natal...
A Senhora, cansada de mudar fraldas [de pano, entenda-se] e de ouvir o choro ensurdecedor da criança, resolveu junto com José, expulsar o Rei Mago Nicolau do presépio para todo o sempre...
Ai o desgraçado do Rei já nem sabia o que haveria de fazer para se redimir... Até que teve a feliz ideia de levar alegrias e presentes a todas as crianças do mundo... nem que fosse apenas uma vez no ano...!
Então desistiu de ser Rei Mago e adoptou um heterónimo [aliás, esta sua ideia foi copiada por Fernando Pessoa]. Desde então que é conhecido por Pai Natal!

#mais outra participação mais ou menos natalícia para a

Fábrica de Letras

06 dezembro 2009

Afinal o Pai Natal trabalha nas finanças...! (e foi à Fábrica)



Eu não entendo a mistificação do Pai Natal. Se me perguntarem qual o simbolismo da árvore de natal cheia de luzinhas, eu sei explicar. Se me perguntarem qual o simbolismo do anjinho por cima da cabana... também sei explicar... Mas agora o Pai Natal?? Pah... não entendo. Ah e tal o Pai Natal dá prendas... Mas dá prendas a quem? Olha... a mim nunca me deu nada! É preciso fazer alguma inscrição? É preciso ir para a fila? Onde? Ah pois é...!
Mas sabem? De todas as histórias mirabolantes que já ouvi acerca do Pai Natal, a melhor é a que vos venho contar hoje, ah pois é!
Tenho uma amiga com dois filhos. O "B" e a "B"! A "B", com 7 anos é a mais nova, e ainda acredita no tal senhor que vem da Lapónia (crenças!). Mas digo-vos que acredita piamente no senhor!! Mas um dia a pequena "B" questionou a eficiência do Pai Natal.... [não a sua existência]. É que na sua cabecinha era muito complicado e apertado de tempo para o senhor das barbas brancas, percorrer o mundo inteiro em tão pouco tempo! Então, quer dizer, todas as crianças do mundo recebiam a visita do senhor à mesma hora? Sempre à mesma hora? Ai não... isso é muito estranho! Mas a mãezinha [que podia ter desmascarado o sr. logo ali] achou que devia acalmar o coraçãozinho da pequena "B", então, explicou-lhe como tudo se processava:
"É simples, filha! Os pais e as mães têm que dar uma mãozinha ao Pai Natal, que já está muito velhinho. Então nós compramos os presentes e mais tarde [muito muito mais tarde, com certeza] o Pai Natal envia-nos um cheque com o dinheiro que gastámos [eu cá prefiro por transferência bancária - muito mais seguro]"
Posto isto, a pequena "B" ficou muito, mas muito mais descansada.... quer dizer, vamos concordar: coitado do velhote!
No entanto, eu, que agora sei disto, estou danada! Como devem calcular! Então, a minha filha tem 8 anos, portanto, já lá vão 8 anos de prendas compradas... mas reembolso, que é bom, nada [é assim que funciona nas finanças]! Tenho que ter uma conversa muito séria com o sr. das barbas brancas para ver se consigo recuperar os meus retroactivos... Nem que tenha de fazer uma reclamação no afamado livro. Mas para que é que ele quer o dinheiro das prendas das crianças... não sei onde está a dificuldade de passar um cheque... aliás, nem precisa, hoje já pode fazer transferências bancárias via net, sem sair de casa.  Mas afinal...? Ah mas isto não fica assim... ai não fica não!


#Uma participação mais ou menos natalícia para a

Fábrica de Letras



Bacci, Lala

16 novembro 2009

Confusão de Letras a Preto e Branco na Fábrica



Preciso escrever. Não sei o quê.  Sei que tem de ser a preto e branco. Sei que tenho algumas ideias alinhavadas. Mas também sei que não passa disso. Estou completamente a branco. Aliás, de branco tenho muito. De preto, ainda nada.
Este é um canto que junta letras de todos os tamanhos, de todas as formas e de todas as cores também. Então juntá-las não vai ser difícil. O difícil é dar a volta às suas cores mais bonitas. Ou melhor, refectir todas as cores numa só ou então retirá-las todas... Todos sabemos que o branco reflete todas as cores, assim como o preto é a ausência de todas elas.
E então? Eu podia desatar a juntar letrinhas, com ou sem cores, que falariam só de coisas bonitas, tipo o amor, a amizade, a esperança... mas isso seria muito pouco a preto e branco!
Ainda tentei escrever um conto... até tinha título e tudo: "Conto de Encontro"... mas deixei-o... estava tão cheio de cor que percebi que não era bem aquilo que eu queria para apresentar na Fábrica de Letras. Também podia fazer aqui uma homenagem ao meu gato Simão... que já está na paz do Senhor, mas que era preto e branco... mas vamos deixar o bicharoco sossegado! Também podia fotografar umas coisas aqui e ali... mas não tenho máquina (acho que isso seria importante...)! Também podia isto, também podia aquilo...
Para acabar com este chorrilho de letras que tentam, mas não fazem sentido nenhum, posso simplesmente dizer:  "Estou completamente em branco". E é aqui que entra o preto, no meio desta confusão toda: Numa folha de papel, exponho a preto as minhas ideias em branco.

Ideias a preto, originalmente gatafunhadas por uma mente visivelmente em branco... quase exclusivamente para:







16 janeiro 2009

Dúvida



Perfilo-me à beira da vida tentando evitar o inevitável. Dobro as esquinas com cuidado evitando as surpresas. Espreito os becos desertos com a esperança de neles ver surgir o (in)esperado. Fujo do confronto, de olhar em frente o que quero não ver mais. Encolho-me no meu canto e escolho a imobilidade pensando assim passar despercebida. A invisibilidade é o que mais pretendo. A instabilidade é o que possuo. A paz é o que procuro mas a desilusão espreita em cada passo. Desilusão. A ilusão desiludida. Instabilidade. Instável estabilidade. Escondo-me do futuro escudada na ilusão, e à beira da vida, aguardo. Imóvel. Salto?

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